O menino que não dormia de tarde

Era uma vez um menino que não tinha o hábito de dormir e nem sequer tirar um cochilo de tarde, sabe-se lá porque. Talvez algumas pessoas são assim por natureza.

Isso não significa que ele nunca teria tido um sono diurno por causa de situações atípicas, sonos desregulados, muito tempo sem dormir, viagens e etc.

Mas pra ele a hora de dormir era a noite, então em condições normais era praticamente impossível ou improvável isso acontecer.

O sono para ele sempre foi algo quase sagrado. Irrite-o de várias maneiras mas não mexa com o seu sono.

Ele não tem frescura pra quase nada mas convide-o para dormir em um lugar desconfortável ou perturbe o seu sono e você fará um inimigo. Chame pra um acampamento e você receberá um não como resposta. Quer deixar ele fora de si? Convide-o pra dormir em barracas, colchões finos e lugares improvisados, com calor, ou frio e etc.

Seja de carro ou de avião as viagens que a sua família fazia nas férias do final do ano cruzavam o país de ponta a ponta e tinham um destino litorâneo: a praia.

Na praia muitos familiares se reuniam na mesma casa. Havia um monte de primos brincando na areia e todo mundo adorava comer os frutos do mar.

Foi assim que o menino cresceu: tendo a praia como o seu destino de férias e as viagens como uma fonte de histórias.

Não era apenas sol, mar e diversão. Havia também o encontro nostálgico das boas lembranças e das brincadeiras, das boas sensações e da magia que era pertinente a aquele lugar.

Mas apesar de todos os momentos legais, divertidos e memoráveis que o litoral poderia proporcionar pra esse menino havia também uma situação chata que ele experimentava durante um determinado período.

De tardezinha, depois do almoço, nesse momento todo mundo ia dormir: crianças, jovens e adultos, exceto uma pessoa: O menino que dá título a esse texto.

As pessoas se amontoavam na enorme varanda e na parte de dentro da casa entre redes e colchões.

A única pessoa que ficava acordada não sentia esse sono tão pontual que fazia as pessoas tirarem um cochilo durante certo tempo.

Esse período parecia uma eternidade para o menino que não dormia de tarde porque ele era a única pessoa que ficava acordada enquanto todo mundo tava dormindo.

Não tinha nada pra fazer. O tédio o consumia em plena luz do dia. 

Ninguém pra brincar, o sol ainda muito forte pra ficar na areia, o mar perigoso pra entrar sem a observação de um adulto e a casa inacessível com o amontoado de corpos estirados nos colchões em estado de hibernação.

E ainda por cima tinha que ficar em silêncio: Não dava pra fazer nenhum barulho pra não acordar ninguém.

Tinha que esperar todo mundo acordar pra fazer alguma coisa, só que até isso acontecer a demora era uma tortura.

Agora você sabe qual era a parte chata de viajar pro litoral para o menino que não dormia de tarde.

Mas eu te contei essa história pra você entender que esse menino nunca teve o hábito e nem a disposição pra dormir a tarde por muitos e muitos anos.

Não era só no litoral, isso marcou sua vida.

Por algum motivo seu organismo ou seu metabolismo nunca pareceu exigir em condições normais a compensação de um sono diurno, mesmo após o almoço ou de tardezinha, desde criança crescida até ele se tornar um jovem.

Porém um dia algo estranho e inesperado aconteceu: O jovem que não dormia de tarde sentiu um sono diurno que o atingiu de forma repentina, sem explicação, como se tivesse respirado alguma espécie de pó mágico ou sonífero, e pela primeira vez na vida a sua cama foi usada pra ele dormir de tarde.

Ele mal sabia que as implicações desse sono seriam uma peça de um grande quebra-cabeça complexo que teria a ver mais pra frente com questões que seriam o resultado das suas experiências, intuições, percepções, aprendizados e o conduziriam a uma posição natural pra falar para as pessoas de dentro dos templos cristãos mesmo estando de fora e também pra falar para as pessoas de fora como se nunca tivesse saído de lá.

Você quer saber o que ele sonhou durante esse sono?

O resultado desse sono ele escreveu há algum tempo no artigo A visão no piso superior da congregação.

Corre lá se você ainda não leu.

Compartilhe:

Publicado

em

por

Tags:

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *