Nesse artigo eu vou te contar a história do menino que escalava uma estante antiga e alta, de madeira maciça, com nichos, divisórias e compartimentos, que ficava na sala da sua casa.
Ele ainda era muito pequeno e tinha os seus poucos anos de idade quando começou a se aventurar em uma arriscada escalada que desafiava os seus limites mas não o impedia de realizar aquilo que o movia.
A estante era muito alta para as suas dimensões infantis, mas ele aprendeu que poderia subir nela com agilidade e algumas manobras.
Quando um forte ímpeto lhe chamava ele colocava o primeiro pé sobre o ressalto mais baixo, segurava nas divisórias para dar apoio e ia projetando o seu corpo enquanto se pendurava até alcançar a altura suficiente para que sua mão conseguisse alcançar a parte mais alta daquele móvel onde ficava um compartimento fechado por duas portinhas.
Então ele esticava o braço até conseguir alcançar o puxador e abrir o compartimento onde estavam guardadas as relíquias que eram objetos do seu desejo e objetivos da sua escalada.
Tateando a parte interna do compartimento sem conseguir ver tudo o que tinha lá dentro ele finalmente consegue identificar os materiais e os segura com sua mão para enfim se soltar de lá de cima finalizando a manobra com um salto até ir parar no chão.
O que ele trazia na mão? Algumas folhas de papel sulfite em branco e um lápis.
Agora sim ele podia fazer o que mais gostava: “desenhar”.
Entre os rabiscos toscos que iam se formando no papel quase sempre havia lá a representação infantil da máquina aérea que ele mais era fascinado: o avião.
Ele também gostava das máquinas náuticas e das naves. Vivia desmontando brinquedos e usando as peças pra criar as suas próprias invenções com fios, baterias e motorzinhos. Tinha o sonho de voar e queria ser um piloto de avião. Foi essa profissão que ele citou quando perguntado na sua formatura pré-escolar.
Na casa da avó já chegava pedindo papel e lápis. Então ele foi crescendo junto com a sua paixão por esse ofício de desenhar, além de escrever letras de músicas e roteiros para os seus personagens e histórias em quadrinhos.
Ele cresceu jogando bola com os meninos da rua e viveu praticamente tudo que faz parte de uma infância raiz: andava em cima do muro, brincava, corria, aprontava, andava de bicicleta, skate, se acidentava de vez em quando(na realidade ele viva se quebrando e as vezes tomava alguns pontos no hospital).
Na escola as pessoas se aglomeravam pra ver ele desenhando. Durante o intervalo vinha gente de todas as séries pedir para que ele fizesse retratos e caricaturas, enquanto o assistiam fazer seus esboços irem tomando forma no papel, em volta da sua carteira da sala de aula.
Mas foi justamente no período escolar que uma coisa séria começou a afetar profundamente o menino, principalmente nos últimos anos letivos.
Era como se ele estivesse caminhando para um vazio absoluto. Uma tristeza começou a querer chegar em meio à incerteza e a sensação de ser engolido por um abismo.
Enquanto seus colegas tinham planos relacionados com algum tipo de futuro corporativo ou profissional ele não conseguia se ver vivendo em um escritório, ou consultório, balcão, estabelecimento ou realizando uma atividade empresarial.
Não era nada contra aqueles que tinham o desejo de ter uma carreira ou atividade normal mas pra ele isso parecia o fim. Ele sentia que não tinha nascido pra esse tipo de coisa. Sim, esse texto também é sobre vocação e propósito, ou sobre a falta deles.
O menino tentava encontrar alternativas ou procurar alguma coisa que tivesse a ver com ele mas não conseguia ver um futuro pra si.
Porém o tempo do período escolar estava acabando e ele precisava fazer alguma escolha porque logo teria que ingressar em uma faculdade.
No último ano ele desenhou a ilustração que estampou a camiseta de formatura da sua turma enquanto todos os colegas ou a maioria deles pareciam encaminhados, mas ele não tinha muitas expectativas.
Ele queria mesmo era ser jogador de futebol, desenhista de quadrinhos, piloto de avião, roteirista, escritor, diretor de cinema.
Até jogava bem, era canhoto de pé, tinha habilidade, driblava, fazia gols e as vezes fazia chover, driblava o time inteiro quando jogava com adversários fracos ou medianos. Porém não conseguia fazer muita coisa quando o nível era de alta performance. Então já tinha desistido do seu sonho de ser um jogador de futebol.
Também percebeu que não teria como viver do seu sonho de ser desenhista. Não dava muito dinheiro para o nível que ele tinha conseguido atingir.
Piloto de avião e diretor de cinema eram realidades distantes pra ele naquele tempo.
Tentou escrever um livro sobre relacionamentos para o público masculino a fim de tentar ajudar os seus colegas mas não soube nem por onde começar.
Porém certa vez enquanto caminhava em direção à sua sala de aula, atravessando o corredor ele teve um vislumbre.
Foi assim: De repente do nada ele sentiu uma sensação muito boa. Parece que uma fumaça invisível o envolveu trazendo uma áurea diferente.
Foi um daqueles momentos especiais quando parece que a terra pára de girar por um instante e todas as boas sensações do mundo convergem pra aquele estado de espírito. É a sensação de que a vida pode ser cheia de liberdade e realização. Multidões e multidões. Talvez ele estivesse ficando louco mas nesse instante ele teve a certeza de que um dia o mundo ficaria pequeno pra ele. Ele não sabia como e porque mas soube que o seu destino não seria comum. Era só questão de tempo.
Um ano depois ele entrou na faculdade de TI e passou a se questionar o tempo todo o que é que ele tava fazendo lá pois nunca tinha sido entusiasta de computadores e tecnologia então se sentia um peixe fora d’água estando no meio de uma tribo que não tinha nada a ver com ele.
Mas ele era um jovem de 16 anos e ganhou um carro modelo Fiat Estrada com cabine estendida pra ir pra faculdade a noite. Então a ideia de dirigir era um fator que lhe dava uma certa motivação.
As aulas de linguagem de programação eram as mais esperadas por todos os estudantes do curso mas o menino acabava sendo um dos últimos da turma.
Aquilo não entrava na sua cabeça. Pra ele era desesperador fazer um monte de códigos se transformar em um programa funcional. Era pior ainda ver os outros conseguindo rodar os códigos com sucesso enquanto ele por mais que se esforçasse não conseguia fazer nada. Ficava todo travado e perdido.
Ir mal na programação para o curso que ele fazia representava o fracasso.
Então mais uma vez vieram à tona aqueles mesmos sentimentos de inutilidade, vazio e incerteza que o cercavam durante aqueles dilemas do período escolar.
Diante do desespero decidiu que precisava fazer alguma coisa. Por isso ele passou a virar as madrugadas assistindo tutoriais de programação por conta própria na internet até se tornar o melhor programador dentre todos os estudantes do curso.
Junto com um amigo da mesma sala tiveram a ideia de fazer um site de cobertura de eventos para publicar a foto das pessoas que participavam das festas na cidade. Então chamaram mais outros colegas de fora e formaram um grupo.
A ideia na verdade tinha mais a ver com diversão. Eles queriam entrar nas festas de graça, tirar uma onda com a camisa da empresa e fazer uma moral com as meninas.
O menino sugeriu o nome de “Circuito Fest”. Todos gostaram. Ele era responsável por programar e cuidar do site incluindo toda a parte técnica e visual enquanto os demais cuidavam mais de funções operacionais e burocráticas, fotografia, negociação, parcerias, patrocínios, publicidade e vendas de serviços.
Sucesso total: O site explodiu e a cidade inteira passou a acessar o Circuito Fest para ver suas fotos lá e acompanhar o que tava rolando nas principais festas e eventos.
Tiveram que aumentar a capacidade do servidor para dar conta dos acessos nos momentos de pico.
O logotipo do site estava espalhado por todo lado na internet por causa das fotos que as pessoas pegavam de lá e publicavam nos seus flogs e no Orkut, que eram as redes sociais da época. Isso gerava um efeito de auto divulgação e crescimento orgânico. A fama foi crescendo exponencialmente.
Todo mês a modelo que era escolhida pra representar o site ganhava uma sessão de fotos pra ser publicada lá. O mascote da marca era uma criatura verde que tinha sido criada pelo menino que escalava a estante quando criança.
As principais empresas da cidade queriam ser patrocinadoras e os principais estabelecimentos da época queriam a presença do site pra cobrir os eventos.
Então passaram a promover algumas festas também.
Acontecia uma transição de alcance municipal para estadual. O Circuito Fest estava conhecido em várias outras localidades.
Aproveitando o embalo de uma música do Mr. Catra os garotos promoveram uma festa chamada “A noite do adultério”.
Recorde absoluto de lotação da casa. Veio gente de vários locais do estado. A fila de carros dobrava o quarteirão e parecia não ter mais fim. Na rua em frente não cabia mais pessoas e muito menos na parte interna do estabelecimento. Tinham que revezar, portanto entrava e saía gente toda hora. Os bilhetes se esgotaram e foram revendidos quatro vezes. Os garotos vestiam a camiseta de organizadores da festa e disputavam entre eles pra ver quem conseguia beijar mais meninas. Ao final tinha a distribuição do bolo de dinheiro, que eles torravam em menos de uma semana.
Mas o menino percebeu que esse estilo de vida não era aquilo que o deixava realizado.
Participar com frequência das noitadas trazia consigo uma natureza própria de implicações que não resultava em satisfação.
Ele percebeu também que não conseguia cumprir os seus votos que tinha feito com Deus pois acabava excedendo os seus limites e fazendo sempre coisas que ele mesmo não aprovava. Depois de toda euforia vinha a tristeza. Ele estava preso em um ciclo que não conseguia sair.
O Fiat Estrada estava virando um motel ambulante e a vida noturna um acumulado de bad trips.
O menino que escalava a estante também ia em algumas igrejas vez ou outra à convite de alguns amigos que tinham se convertido então por ter ouvido algumas palavras ele intuía que existia algo melhor pra ser vivido apesar de nunca ter desejado ser um religioso.
Usando as suas habilidades de programação ele criava várias coisas autorais, projetos e protótipos de suas aplicações web.
Ele criou do zero uma rede social como experimento se baseando no Orkut com todos os seus recursos e funcionalidades. Os professores da faculdade o parabenizavam.
Ele teve também uma intuição a respeito do que poderia ser o futuro e começou a criar uma espécie de mistura entre portal de notícias com rede social, um ambiente online onde as pessoas poderiam criar redes de amizade, trocar mensagens, escrever comentários, enquanto liam as matérias.
Por volta da mesma época havia outro universitário desenvolvendo uma ideia parecida na universidade de Harvard nos Estados Unidos. A diferença é que ele teve a ideia de um feed de notícias com rolagem vertical. Seu nome era Mark Zuckerberg e ele chamou seu projeto de Facebook.
O menino que escalava a estante até gostava de programar mas no fundo levava isso como um hobby ou uma diversão. Até passou a trabalhar com isso mas nunca foi a sua meta de vida.
Quando tinha uns 9 anos de idade no quintal de casa olhou para o céu e perguntou se existia um Deus e se ele seria mesmo Jesus.
Com uns 14 anos foi tocado de forma profunda pelo Espírito, então soube que esse Deus existia e que ele era Jesus, mas não sabia muito bem o que fazer para segui-lo.
Com uns 16 pra 17 ele teve a oportunidade de segui-lo mas acabou fugindo do chamado e se dispersou na ânsia de seguir o próprio caminho.
Porém com 18 anos de idade ele foi encurralado por Deus e não teve mais como fugir. Ainda bem! Agora era pra valer. Não havia mais volta. Então o menino foi marcado pelo fogo e nunca mais voltou atrás.
Naquele mesmo dia depois que acabou a vigília que mudou a sua vida já estava amanhecendo quando ele dirigia o seu Fiat Estrada de volta pra casa.
Ele olhava pra fora da janela do carro observando o mundo de uma forma que nunca tinha feito antes. Ele só conseguia ver a beleza da criação em todo lugar. Seu coração estava transbordando de compaixão, do amor de Deus e do desejo por ajudar vidas humanas. Então pensou: O mundo precisa conhecer a Jesus. Na sua mente nascia uma obsessão: espalhar a palavra que tinha o transformado.
Foi aí que ele descobriu pra que tinha nascido: Pra ser profeta de Deus.
Ou seja, o menino que escalava a estante não tinha a certeza se existia um Deus, mas depois soube que existia esse Deus e que Jesus era mesmo esse Deus, então conheceu esse Deus, se tornou amigo íntimo desse Deus e depois ficou obcecado em fazer as pessoas conhecerem esse Deus.
Ele pensou que seria fácil mas não era ainda nem o começo da história.
A partir daí se iniciou a loucura. Os próximos anos foram marcados pelas confirmações do que as suas intuições já apontavam. O vislumbre que tinha ocorrido aquela vez na escola quando ainda nem caminhava com Deus agora eram muitos e não paravam mais. Não tinha como ele fugir do seu destino. Multidões e multidões.
Também apareciam pessoas que ele nunca tinha visto na vida de diferentes lugares para lhe entregar os recados da parte de Deus. Pessoas de oração, gente comum que tinha intimidade com Deus: homens, mulheres, meninas, jovens, senhoras, velhos.
Algumas dessas pessoas tinham visões em plena luz do dia ou durante os cultos e reuniões a respeito do menino e do seu ministério profético. Deus já vinha usando pessoas e comunicando a ele a respeito do pipoco que ia estourar e a magnitude da proporção daquilo que lhe esperava.
Muitos ficavam espantados, não o conheciam, não sabiam bem quem ele era mas pareciam não acreditar, olhavam pra ele como se ele fosse um fantasma.
Então o menino que escalava a estante foi entendendo quem ele era diante de Deus e tinha uma noção do que haveria de acontecer com a sua vida. Multidões e multidões.
Ele pensou que já estava prestes a viver as promessas mas ao invés disso chegou o momento que o seu mundo caiu.
O menino tinha um pesadelo recorrente que acontecia com frequência e lhe acompanhou a vida inteira até esse momento. Então o pesadelo parou de ocorrer durante os sonos porque se materializou na própria realidade.
O que parecia ser uma tragédia era na realidade plano de Deus: Ele precisaria experimentar a insanidade da religião para conhecer a dor de quem um dia iria ajudar.
Por isso foi levado ao extremo para viver tudo que era possível dentro das mais diversas denominações e templos cristãos até chegar ao colapso. Sua mente não aguentou.
Fazia parte do seu destino enfrentar um grande sofrimento para depois alcançar a glória.
Sua percepção espacial ficou completamente desorganizada e isso causava ataques de pânico em lugares abertos, o que tornou a sua vida mais restrita e o isolou. Sair de casa passou a ser um desafio e se agrupar com outras pessoas era difícil.
Porém essa também era a condição perfeita pra sua missão: Então foi conduzido pelo Espírito para aprender o conhecimento que Deus queria entregar-lhe até que chegasse o momento de ser revelado para o mundo.
O menino precisou ser escondido por Deus para ser preparado enquanto era protegido.
Quando se cumpriu o tempo vivendo dentro dos ambientes religiosos Deus o tirou de lá e o levou para conhecer a dor dessa geração. Muitas pessoas acharam que ele tinha regredido mas ele estava seguindo a direção do Espírito pra sua vida.
No fim das contas perdeu momentaneamente capacidades simples mas passou a depender dos sentidos de Deus, por isso aprendeu a viver sob a dependência dele até adquirir uma visão de raio-X, a agilidade das corças, o entendimento sobre a psicologia da natureza humana, a sensibilidade que dosa a medida das coisas e a objetividade que se aplica com conhecimento de caso.
Ele não chegou a se tornar um piloto de avião mas estava destinado a voar nas asas do Espírito.
Ele não foi o criador de alguma plataforma de mídias digitais mas iria entregar a sua mensagem através delas, usando as suas habilidades naturais e os seus dons pra cumprir o chamado da sua vocação a serviço de Deus.
O menino por amor renunciou a sua vida para seguir a Jesus e perdeu um monte de coisa mas encontrou o caminho que o levaria até a realização, para beneficiar a muitos, para pregar o evangelho na terra com poder e autoridade, para ajudar as pessoas a encontrar os seus destinos, para reinar com cetro real e para ser uma flecha afiada na aljava de Deus.
“Tornou minhas palavras de juízo afiadas como espada, escondeu-me na sombra de sua mão; sou como flecha afiada em sua aljava”. (Isaías 49:2)
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